Resenha de "Fera" de Brie Spangler

 

   A autora Brie Spangler aborda de forma sensível e profunda o preconceito e o bullying sofridos pelos protagonistas, Jaime e Dylan.

   Jaime, uma jovem mulher transgênero, é vítima de intensa perseguição na escola. Ela sofre o desprezo e a falta de aceitação dos colegas, sendo constantemente menosprezada por sua identidade. Já Dylan, apelidado cruelmente de "Fera" na escola, enfrenta o julgamento por sua aparência física — um corpo de quase dois metros de altura e coberto por pelos. O bullying o faz acreditar que é uma pessoa má e fadada ao fracasso. O preconceito, no entanto, não se limita ao ambiente escolar: até a mãe de Dylan, inicialmente, demonstra receio e uma certa aversão em relação a Jaime.

   O encontro dos dois ocorre em um grupo de terapia intensiva, onde eles começam a descobrir e a mostrar um ao outro novas perspectivas sobre a vida.

   O relacionamento é posto à prova quando Dylan descobre que Jaime é transgênero. Ele é inicialmente tomado pelo choque e entra em conflito com os sentimentos que nutre por ela. No entanto, após uma intensa luta interna, Dylan cede ao afeto e, ao fazer isso, passa a quebrar as barreiras e os preconceitos que ele próprio, e a sociedade, impunham sobre a identidade de gênero e a sexualidade.

   A temática é o grande acerto do livro. A autora convida o leitor a refletir profundamente, promovendo maior empatia e o abandono do preconceito — um processo que, como sabemos, não acontece da noite para o dia. Spangler expõe de maneira clara como a sociedade está sempre pronta a julgar o que é diferente e a focar excessivamente nas aparências.

   Minha conclusão: Eu amei o tema que a autora trouxe. É uma obra que não só emociona, mas também educa, mostrando a importância da aceitação e do amor incondicional.

   O livro faz um trabalho notável ao mostrar que o preconceito não é apenas algo externo, mas também um peso interno que afeta até mesmo aqueles que são vítimas.

   O Aprofundamento na Quebra do Preconceito:

   O desenvolvimento de Dylan e Jaime é um espelho de como a aceitação é um caminho complexo que envolve desconstruir tanto o olhar da sociedade quanto o próprio.

   A Jornada de Dylan: Vencendo o Preconceito Interno e Externo

   A "Fera" é o nome da armadilha do preconceito em que Dylan se encontra.

  A Crença na Aparência (Preconceito Externo): Dylan sofre bullying constante devido à sua altura e pelos, o que o leva a internalizar o apelido "Fera". Ele passa a acreditar que é intrinsecamente ruim, desajeitado e incapaz de ter coisas boas. A sociedade (na forma de seus colegas) o rotula, e ele aceita esse rótulo.

  O Choque e a Luta (Preconceito de Gênero): A atração de Dylan por Jaime é imediata, mas a descoberta de que ela é uma mulher transgênero o coloca em uma crise profunda. Esse choque não é apenas sobre a identidade de Jaime, mas sobre o preconceito enraizado que ele carrega, herdado da sociedade. Ele luta contra o que sente porque a sociedade lhe ensinou, implicitamente ou explicitamente, que amar uma garota trans não se encaixa na "norma".

  A Rendição e a Liberdade (Quebra): O momento da quebra acontece quando o amor e a conexão que ele sente por Jaime se tornam mais fortes do que o medo do julgamento ou o preconceito social. Ao aceitar Jaime integralmente, Dylan não apenas a aceita, mas liberta-se do próprio preconceito. Ele percebe que se ele é capaz de amar alguém que a sociedade tenta marginalizar, o rótulo de "Fera" que a sociedade lhe impôs também não tem poder. A aceitação de Jaime se torna o caminho para a sua própria autoaceitação.

   A Jornada de Jaime: Enfrentando a Não-Aceitação Social

   A luta de Jaime é uma batalha pela validade e pelo respeito de sua identidade.

  O Peso da Desumanização: Como uma pessoa transgênero, Jaime é alvo da desumanização e do menosprezo por parte dos colegas. Sua dor vem do constante esforço para ser vista e respeitada como a mulher que ela é, em um ambiente que nega essa realidade.

  O Papel da Terapia: O grupo de terapia é crucial, pois é o primeiro ambiente onde a sua identidade é, de certa forma, válida e onde ela pode se conectar com outras dores. Sua história com Dylan se constrói na vulnerabilidade, o que permite que ela finalmente baixe a guarda e deixe alguém conhecê-la de verdade.

  A Prova de Fogo: O amor de Dylan, após o choque inicial dele, serve como a confirmação mais poderosa de sua validade. Se Dylan, que carrega as próprias feridas sociais, pode vê-la, amá-la e defendê-la como uma mulher, isso reforça a verdade de quem ela é, apesar de todo o preconceito que ela enfrenta externamente. A quebra do preconceito de Dylan é um alívio e uma vitória para Jaime, pois mostra que o amor pode superar a ignorância.

   Por tanto, o livro mostra que a quebra do preconceito é um duplo processo: para Dylan, é a libertação do seu preconceito interno para conseguir amar; para Jaime, é a conquista de ser vista e amada em sua totalidade, uma vitória contra o preconceito externo que a sufocava.

   Você destacou um ponto crucial! A terapia é o pilar central em "Fera", não apenas como um cenário, mas como o catalisador essencial para a transformação dos personagens.

   A Importância da Terapia em "Fera":

   A terapia intensiva em grupo, onde Jaime e Dylan se encontram, é muito mais do que um pano de fundo; é o ambiente controlado e seguro que permite que ambos comecem o processo de cura e aceitação.

   1. Um Espaço para Vulnerabilidade e Verdade:

   O grupo de terapia oferece aos protagonistas o único espaço onde eles podem, verdadeiramente, ser autênticos e vulneráveis sem o julgamento imediato do mundo exterior.

  Para Dylan: É o lugar onde ele pode verbalizar a dor de ser visto como a "Fera" e de se sentir uma pessoa intrinsecamente ruim. Ao compartilhar suas inseguranças, ele começa a desmontar a fachada que o bullying criou.

  Para Jaime: É um refúgio da transfobia escolar. Ali, sua identidade é respeitada e validada, o que lhe dá a força e a segurança emocional para se abrir e construir um relacionamento, algo que seria quase impossível no ambiente hostil da escola.

   2. O Catalisador do Encontro e do Afeto:

   Sem a terapia, o encontro de Jaime e Dylan talvez não fosse possível ou, pelo menos, não teria a mesma profundidade. O grupo força uma conexão baseada na dor e na empatia mútua, não na superficialidade das aparências ou nas expectativas sociais.

  A terapia tira os personagens de seus contextos problemáticos (a escola e o preconceito) e os coloca em um terreno neutro, onde a atração surge da compreensão mútua de suas lutas internas.

   3. O Processo de Desmistificação das Feridas:

   A estrutura do grupo de terapia enfatiza que ninguém está sozinho em seu sofrimento. Ao ouvir as histórias dos outros, Dylan e Jaime percebem que suas feridas, sejam elas físicas (como a aparência de Dylan) ou de identidade (como a de Jaime), são válidas e fazem parte de uma experiência humana compartilhada.

  Essa validação externa é vital para que ambos comecem a quebrar o preconceito internalizado. A aceitação que encontram no grupo é o ensaio para a autoaceitação.

   A terapia em "Fera" é o berço da aceitação. Ela tira os protagonistas do isolamento social e lhes oferece as ferramentas emocionais e o espaço seguro para se verem e, mais importante, para se aceitarem e amarem um ao outro além dos rótulos e preconceitos que o mundo lhes impôs.


   Normalização da Ajuda Psicológica em "Fera":

   Sim, o livro faz um excelente trabalho ao normalizar e incentivar a busca por ajuda psicológica para lidar com questões complexas como bullying e identidade.

   A presença do grupo de terapia é fundamental, pois contrasta com a visão comum de que o processo de cura deve ser rápido e "medicamentoso". Muitas pessoas esperam uma solução instantânea e eficaz, mas "Fera" mostra o oposto: a terapia é um processo doloroso, lento e de longo prazo. No caso de Jaime e Dylan, o acompanhamento profissional é o que permite que eles, e outros personagens, enfrentem o sofrimento causado pelo preconceito e a baixa autoestima de uma forma estruturada e segura, tornando o caminho da melhora possível, mesmo que não seja fácil.

   O Amor como Força Libertadora na Narrativa:

   Absolutamente. A libertação de Dylan do seu próprio preconceito, motivada pelo amor por Jaime, é o ponto mais forte da narrativa.

   A aceitação de Jaime atua como um catalisador para a autoaceitação de Dylan. O processo de libertação de qualquer preconceito ou dor nunca é fácil, seja para os personagens ou na vida real. No entanto, o amor incondicional que nasce entre eles torna o caminho mais fluido. Ao aceitar Jaime por completo, Dylan prova a si mesmo que os rótulos cruéis que a sociedade e ele próprio se impuseram ("Fera") são falsos. É a força desse vínculo afetivo que o capacita a quebrar barreiras internas e externas, transformando o amor na maior ferramenta de superação da história.


   Bora de perguntinha!


  1. "Fera": Você já leu? Qual foi a parte da história que mais tocou você?

  2.  Para quem já conhece o livro, você acha que a autora conseguiu, de fato, mostrar a importância da terapia na superação do preconceito, como discutimos?

  3. Qual dos personagens – Jaime ou Dylan – você sentiu que teve a jornada de aceitação mais difícil? Por quê?

  4. Com base nesta resenha e nos temas abordados (preconceito, identidade trans, bullying), "Fera" entrou para a sua lista de leituras (TBR)?

  5. Você já ouviu falar do livro antes? O que te atrai ou te afasta dessa leitura?

  6.  O livro aborda a quebra de preconceito de forma muito intensa. Você acredita que a literatura jovem adulta (YA) tem o poder de mudar a forma como a sociedade enxerga temas de identidade e aceitação?



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